Desrazão - apresentação do livro
- Jean Sartief
- há 6 dias
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Desrazão (Giro/2024), do poeta brasileiro Jean Sartief, é um livro de poemas que mergulha nas tensões entre razão e caos na experiência humana contemporânea. Composto por cerca de 107 poemas, a obra investiga sentimentos íntimos, conflitos sociais e as inquietações de viver em um tempo marcado por excessos de informação, polarização e instabilidade emocional. Em vez de oferecer respostas, o livro propõe um percurso poético por aquilo que escapa à lógica, convidando o leitor a atravessar territórios de dúvida, sensibilidade e reflexão.
Joan Brossa, poeta catalão, disse uma vez a revista Cult (João Bandeira/Noemi Jaffe) em uma das suas últimas entrevistas, que: “para apreciar um poema é preciso alguma base além do gostar ou do não gostar” e o poeta conclui que quando faz algum trabalho ele se dirige à inteligência das pessoas. Talvez para começar a descrever Desrazão seria bom falarmos da capa do livro que também é uma arte criada pelo poeta Jean Sartief. Propõe imageticamente um desafio ao leitor. Assim como Brossa referiu-se, Sartief vai além da pele e adentra mais e mais, deixando de lado essa superfície do gostar e do não gostar e busca pela inteligência do leitor.
Tanto na literatura como nas artes visuais, Sartief explora o conceito da opacidade, em que o que é ofertado não é totalmente transparente, ou seja, requer do público um mergulho mais intenso para o desvendamento.
A capa parte da provocação de um ovo e um abridor de garrafas no que parece ser uma velha tábua de carne. Aparentemente não parece haver significados, mas é justamente essa metáfora dos inconciliáveis que Sartief desenvolve todo o livro.
Ao longo dos poemas, Sartief articula elementos autobiográficos, afetivos e políticos para refletir sobre o estado de “desrazão” que atravessa o cotidiano. Amor, memória, sexualidade, espiritualidade e crítica social aparecem entrelaçados em uma linguagem sensorial e fragmentada, que busca revelar o lado obscuro e contraditório da condição humana. O poeta observa tanto o mundo exterior quanto as próprias inquietações internas, transformando experiências pessoais e coletivas em matéria poética intensa e multifacetada.
Mais do que um conjunto de poemas, Desrazão constrói uma espécie de travessia simbólica por um mundo em desordem — uma “nau” onde os indivíduos seguem à deriva entre lucidez e delírio. Nesse cenário, a poesia surge como ferramenta de resistência e compreensão, capaz de nomear angústias e revelar novas formas de olhar a realidade. O resultado é uma obra que reafirma o papel da poesia como espaço de questionamento, sensibilidade e liberdade diante das contradições do nosso tempo.
O livro foi lançado através do selo editorial Giro, sob patente da artista, editora e radiojornalista Rita Machado. Conceição Flores, doutora em literaturas, que assina o prefácio indica que tanto o eu poético no livro como a razão e a loucura são trabalhadas com intensidade e como uma confissão de estar no mundo que permeia um “silêncio habitado”, termo escrito por Sartief. Samuel de Mattos, doutor em letras, que escreveu a orelha do livro, assinala que para o autor a trilha comum do cotidiano transforma-se numa emergência universal e que o ritmo livre, sem rimas e sem medida dá força à própria palavra como direcionamento e que sem territórios fixos, o poeta amplia seu alcance.





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